Comer direito é um direito

02/06/2020 07h39
Categoria: Saúde e Qualidade Alimentar

Gláucia Batista

Em 16 de outubro de 1945 nascia a FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations, em português Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) sendo uma agência que lidera esforços internacionais com o objetivo erradicar a fome, a insegurança alimentar e a desnutrição no mundo alcançando a segurança alimentar devida, garantindo alimentos de boa qualidade para se ter uma vida ativa e saudável através de inúmeros programas e projetos.

Isso veio para reconstruir o mundo e garantir este direito á alimentação, mas a estrada é longa e está longe de terminar. Pois ainda existem cerca 820 milhões de pessoas no mundo que não tiveram acessos suficientes a alimentos, segundo dados da FAO em 2019.

O modo como produzimos alimentos e nos alimentamos no Brasil está totalmente desproporcional quando comparamos o que produzimos com o que comemos. O paradoxo vem quando os números de brasileiros obesos, sobrepesos e com doenças crônicas causadas por má alimentação rica em gorduras, açúcares, excesso de proteínas e ultraprocessados continuam a crescer. Já é um fato que a geração nascida em 1980 á 1990 está a caminho de se tornar o grupo com maior ganho de peso da História.

Por isso falar sobre o direito de comer é tão importante e não sai da moda. O Brasil avançou muito nos últimos anos com programas para combater a fome, se tornando de fato um direito, gerando consequentemente em 2006 a lei LOSAN (Lei Orgânica de Segurança Alimentar e Nutricional) para que a fome seja debatida e enfrentada como deve ser e não apenas ser só um compromisso do governo. Mas somente em 2010 a Constituição aprovou a Emenda Constitucional nº 64, que inclui a alimentação no artigo 6º da Constituição Federal. Ainda assim não temos a garantia da realização desses direitos na prática.

Antes de dar de comer é preciso também criar condições para que as necessidades dessas pessoas sejam supridas e tenham condições de continuarem a se satisfazerem sozinhas, conciliando alimento com ações para gerar novas fontes de rendas.

A fome causa problemas psicológicos como depressão, apatia, danos físicos devido a carência enorme de vitaminas e minerais essenciais para o bom funcionamento do corpo humano, perda intensa de massa muscular ou tecidos gordurosos, provocando debilidade física e emagrecimento severo, interrupção no crescimento, problemas no sistema nervoso dentre outras tantas complicações, sendo muitas vezes irreversíveis.

Isso não é problema de um ou de outro, é um problema político social, sendo a grande causa o desemprego e a desigualdade de oportunidades quando são “distribuídas” por aí a fora. A equidade é o primeiro passo para a inclusão social e rompimento dessas barreiras.

Pessoas bem alimentadas são beneficiadas com saúde, recuperação do estado nutricional adequado, mais anos de estudos, mais chances de romper o ciclo da pobreza e da exclusão social. Essa temática tem que ser incorporada como item fundamental nas atividades privadas e públicas, para que a segurança alimentar seja de fato alcançada para quem come e para quem não come. Devemos cuidar das futuras gerações melhorando e fortalecendo a saúde e as relações humanas. Afinal, nada melhor do que se reunir em torno de uma mesa ao lado das pessoas que você ama, com comida de verdade.

Gláucia Batista - Nutricionista especialista em Vigilância Sanitária e Controle e Qualidade de Alimentos - CRN 3 - 29670

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